terça-feira, 18 de novembro de 2025

senta que lá vem história


estudei quatro anos na escolinha de pau, na praça poá, bairro nova floresta.
nunca tomei bomba.
depois, fui trabalhar de biscateiro pra ajudar em casa.
minha mãe era mãe solteira minha e de minha irmã, mais nova cinco anos.
um dia, já adolescente, fiz as provas de supletivo, que se chamava madureza ginasial.
passei em quase todas, menos em biologia.
continuei nos bicos.
pessoal não contratava menor de 18 anos com carteira assinada porque ele poderia pegar exército e o patrão tinha de mantê-lo
no emprego, pagando tudo.
não virei milico, graças a jah.
não duraria um mês.
seguiria, com certeza, marighella!
alguém me disse que pra fazer supletivo de segundo grau, bastava ter 18 anos.
fui lá e fiz.
tudo bem, exceto biologia.
segui em frente.
fui frentista, entregador de jornal, embalador de legumes, trocador, balconista de bar, auxiliar de escritório, peão na construção do aeroporto tom jobim, armador no mesmo lugar, e vendedor de livros na agencia status.
me casei.
um dia, do nada resolvi fazer vestibular numa faculdade paga.
passei de prima.
mas não tinha o segundo grau completo.
faltava a prova de biologia de um século atrás.
rodei sesu, rodei contagem, subi ao prédio da afonso pena onde tinha um anexo da secretária de educação, pedindo pelamordedeus à coordenadora pra fazer a prova.
consegui.
não passei.
perdi a vaga na faculdade.
nem chorei.
tinha um filho pra criar e fui pra vida.
seis meses depois, fiz o vestibular de novo, passei, fiz a prova de biologia, passei e aqui tô eu, jornalista formado e diplomado, pós graduado, ex repórter de rádio, tv e jornal, apresentador de tv e rádio, e redator dos bão!
paguei a faculdade com crédito educativo e sangue.
tudo que aprendi foi com aqueles quatro anos de primário, os livros, o pasquim, realidade, e outros trem bão que havia no brasil e não tem mais.
será que a biologia explica?

 viajar é fazer o tempo fluir mais devagar.

a gente conta os segundos.
uma delícia sem par!

 queria passar uma tarde tomando cerveja num quiosque em copacabana com ariel palácios, otávio guedes e joaquim ferreira dos santos.

minha lista, 20 anos atrás, era enorme.
coisas do mundo, minha nega.

 as praias

são domínios
de crianças
cachorros
surfistas
se quisermos
uma lasquinha
nos transubstanciarmos
em cachorros e/ou crianças
é uma boa
surfistas são deuses

 eu sei um monte

de coisas
que não tem importância
pra ninguém
outro dia
um amigo disse
que sabe coisas que
outro dia
valiam bom dinheiro
não pagam
aluguel hoje
é o tal monte de coisas
que a gente sabe
e que não tem
importância
pra ninguém

 o dia é bom

mas a noite
é tão macia
aconchegante
cheirosa
e gostosa
parece colo de mãe

 a verdade às vezes é rude

para ouvidos menos moucos
os atos de amor são poucos
as rimas pobres
tudo é enredo
de casulo de borboleta
pra dizer
que eu gostaria
de morar em sua buceta
(para sempre e mais um dia)

 tava no bar do joão. contava um pedaço de minha vida para um jovem jornalista recém formado que tinha curiosidade sobre mim. em dado momento ele disse "cara, você veio do nada!" concordei com um podicrê, amizade! foi o start pra um contemporâneo que conheço de bairro, dono de duas lojas de revenda de carros usados, pular no ringue dizendo que também tinha vindo do nada e me parabenizando pela força.

conheço desde criança.
pai tenente do exército, branco de olhos claros, três refeições por dia, escolas e faculdade particulares, festas com presentes em natal, aniversário, dia das crianças; viagens de avião pra praia nas férias, um carro quando se formou em direito.
apenas meneei a cabeça, dizendo baixinho aham.
como é bom o entorpecimento que o álcool me causa.

 tem gente

que a gente
guarda no coração
tem gente
que a gente
guarda na mente
as da mente
aos poucos
vão sumindo
nuvens no verão
tocadas pela brisa
as do coração
quando para
e não avisa

 interessante pensar que se eu tivesse tido oportunidade de fazer o ciclo estudantil todo depois do primário, que eram chamados de ginasial e segundo grau, talvez tivesse abandonado os estudos e me tornado motorista de ônibus.

e nunca tivesse feito uma faculdade e uma pós.
pra quem nasceu de humanas, as matérias científicas e exatas são muiito chatas!
e pensar que já lamentei não ter sido um secundarista.
deve ser por conta dos filmes americanos.
viva o supletivo!
(ainda existe, será? com esse nome?)
antes que a patrulha da hipocrisia venha: ser motorista era tudo que eu achava o máximo.
além de tudo, pegavam todas as mulheres.
fui trocador. e via.
(ainda pegam, os malandrões!)

 pro caso de eu eu morrer antes deles, vou deixar aqui avisados neide e gabriel: quero que minhas cinzas sejam espalhadas sobre margaridas e sobre aquelas flores que dão nos meio fios de belo horizonte.

e um pouco sobre a pista de bike ao redor da pampulha.
se sobrar, jogue na rua jaguaribe, em frente onde era o bar do rogerio e o abacateiro rosa, no concórdia.
é tudo.

 frase horrível de dizer e de ouvir:

minha/meu mãe/pai morreu!

 não soube consertar meu país, meu estado e minha cidade;

nem educar meus filhos, manter um casamento ou empregos ou até amigos.

mas, me conte sua história, alegre ou triste, e eu saberei transformá-la numa matéria jornalística, conto, video ou poema, sensacional.
é o que sei fazer.
apenas.

"shot story

 tomm_paixhot" storye desde aquele dia, ele nunca mais disse a ela "eu te amo!"

foram 37 anos. casamento, filhos, netos, viagens, um sítio, festas, mortes. nem suas últimas palavras ele disse. não teria mesmo quem escutar. estava na uti. um suspiro e se foi. parecia ter um sorriso tranquilo no rosto, notaram no velório.