ele dizia que gostava de ficar sozinho.
todos acreditavam, até mesmo um tanto aliviados.
filhos, noras e genros e até alguns netos mais velhos, não tinham muita paciência com ele, que gostava muito de conversar.
ficou em casa na passagem de ano.
tinha meia garrafa de vodka e frango à passarinho temperado da sadia e batatas pré fritas mac cain.
o que não sabiam é que ele ficava triste com o abandono, embora nada dissesse.
foi criado no modo homem não reclama.
e, ademais, de que adiantaria?
só ouviria, como já ouvira, muxoxos das noras. principalmente de isabel, a advogada de nariz empinado que mandava em seu filho caçula. zapeou a tv, pensou em ir à praça da liberdade ver os drones.
mas ficou foi bicando a vodka, brincando com seu gato e vendo uma coisa ou outra na TV.
não pensou muito em si.
por volta de 11 horas, sentiu grande tonteira, ao se levantar do vaso.
caiu.
a vista escureceu.
ainda teve tempo de pensar: "mas, vou morrer assim, pelado com a bunda suja?"
tudo se apagou.
o encontraram no dia 3, quando voltaram do hotel fazenda all inclusive.
o gato dormia ao lado dele.
não havia uma chamada ou emoji sequer em seu celular.
isabel fez cara de nojo e vomitou. foi a primeira a vê-lo.
ele parecia sorrir.
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